Contribuições à Ciência

Além do importante apoio empresarial que Jean Pierre Proponnet ofereceu ao CELAFISCS, seu espírito empreendedor e visionário permitiu que aos 3 meses de existência de Agita São Paulo já vaticinasse a evolução do programa para Agita Mundo. Seu pensamento era que quem conseguisse agitar um estado com uma população de mais de 30 milhões de habitantes, conseguiria “know-how” para ir adiante. Dizia ele “Why not Agita Brazil? Why not Agita America? Why not Agita World?”. Era maio de 1997, parece outro dia…

O CELAFISCS nesses trinta anos tem contribuído com as Ciências do Esporte e no âmbito nacional e internacional. Os destaques abaixo representam compromissos do CELAFISCS, assumido desde a sua criação, que são:

  • Desenvolvimento da área de Ciências do Esporte no âmbito Nacional e Internacional.
  • Desenvolvimento de técnicas de mensuração da aptidão física não complexas, de baixo custo e aplicabilidade em grandes grupos e com alto rigor científico.

A seguir apresentamos algumas dessas contribuições:

Criação do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte – CBCE

O CELAFISCS aos quatro anos de idade, em conjunto com outros profissionais de renome nacional, fundou no dia 17 de setembro de 1978 o Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, registrado em novembro:

“Aos dois dias do mês de novembro de 1978 (02/11/1978), reuniram-se Assembléia Geral Extraordinária, no salão de conferência do Hotel Bourbon, situado na alameda Miguel Blase nº 40, em Londrina, Estado do Paraná, os senhores Victor Keihan Rodrigues Matsudo; Cláudio Gil Soares de Araújo; Sandra Mara Cavasini; Paulo Sérgio Chagas Gomes; Pinto Montemor; Lílian Nascimento Montemor; João Batista Freire da Silva; Silvana Venâncio Freire; Laércio Elias Pereira; Emédio Bonjardim; João Bosco da Silva; Elisabeth Marco da Silva; Alberto dos Santos Puga Barbosa; Sandra Maria Perez; Jesus Soares; Sandra Caldeira; Maria Beatriz Rocha Ferreira; Leda Maria Moral; Madalena Sessa; Anselmo José Perez; Marco Antônio Vívolo; Sônia Cazelati; Maria de Fátima Silva Duarte; Carlos Roberto Duarte; João Batista Santana; Dartagnan Pinto Guedes, para deliberar sobre a criação do “COLÉGIO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DO ESPORTE – CBCE”... www.cbce.org.br

Criação da Escala de Percepção Subjetiva de Esforço - 0 a 10

Em 1983, durante o III Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte, a Psicóloga Sandra Mara Cavasini e o Dr. Victor Matsudo apresentaram a validação de uma escala subjetiva de esforço de 0 a 10 pontos. Essa escala foi uma alternativa para a tradicional escala de PSE de Borg de 6 a 20, já que as notas de 0 a 10 são mais comuns em nossa cultura, principalmente na fase escolar. A pesquisa mostrou valores de correlação entre a PSE 0-10 e Freqüência Cardíaca foi de 0,92 para homens e 0,95 para mulheres, esses valores não diferiram da relação entre PSE 6-20 proposta por Borg e FC foi de 0,96 tanto para homens como para as mulheres.

Criação do Teste de 40 segundos

Em 1977, o Dr. Victor Matsudo, durante o V Simpósio de Esportes Colegiais, apresentou o Teste de 40 segundos como uma proposta de mensuração da Potência Anaeróbica Total, como uma alternativa que atendia aos critérios de cientificidade (objetividade r=0,99 para ambos os sexos e reprodutibilidade r=0,99).

Criação da Estratégia Z CELAFISCS

Em 1987, Victor Matsudo, Ricardo Rivet e Mônica Helena Neves Pereira publicaram no Journal of Sports Sciences a Estratégia Z CELAFISCS, proposta para a detecção de talentos, utilizando como base o cálculo estatístico conhecido como índice z. A partir do resultado da avaliação da aptidão física comparada à média aritmética e desvio padrão da população da mesma idade e sexo, determina-se o quanto o indivíduo se afasta da normalidade populacional em unidades de desvio padrão, identificando se o avaliado apresenta uma ou um conjunto de variáveis de destaque. Em 1992, durante as Olimpíadas de Barcelona, o CELAFISCS é agraciado com o Primeiro lugar com o Prêmio Internacional Fundación L’Caixa Medicina do Esporte e Promoção da Saúde e em 1996 o segundo lugar no Prêmio Príncipe Faisal, oferecido pela Federação Internacional de Educação Física – FIEP.

Criação do Método de Auto-Avaliação da Maturação Sexual

Em 1991, Sandra Mahecha Matsudo e Victor Matsudo publicaram na Revista Brasileira de Ciência e Movimento e em 1994 no American Journal of Human Biology uma proposta de auto-avaliação da maturação sexual, mediante o uso da técnica projetiva com as pranchas das características sexuais secundárias baseadas nas pranchas de Tanner, apresentando valores significativos de validade, reprodutibilidade e objetividade.

Participação no Processo de Validação do IPAQ

Desde 1998 o CELAFISCS foi convidado a ser um Centro Cooperante, único na América Latina, para participar do projeto de validação do IPAQ – International Physical Activity Questionnaire, proposto pela Organização Mundial de Saúde, e que tem como propósito determinar o nível de Atividade Física em nível populacional.

Alometria

Quando uma criança de 8 anos salta 4 cm mais que aos 7 anos, tal fato acontece porque ela cresceu (está um pouco mais alta) ou porque ela se desenvolveu (seus músculos estão mais fortes)? Para responder a esta intrigante pergunta uma das técnicas cineantropométricas mais sofisticadas de análise é a alometria, onde estatisticamente se busca um índice de relação “b”, que indica quanto a variação em uma característica (p.e., impulso vertical) foi decorrente de uma variação da altura. Em 1981, no Congresso do American College of Sports Medicine em Miami, Victor Matsudo apresentou os primeiros (talvez únicos) valores de “b” em escolares de países em desenvolvimento, concluindo que da infância à adolescência a melhora de resultados de força muscular não pode ser explicada apenas pelo incremento na altura, demonstrando que na puberdade ocorre não só crescimento mas desenvolvimento da força, ou seja, ela amadurece.

Comparação de Aptidão Física Nacional

O conhecimento do normal fascinou muito os colegas do CELAFISCS. Depois de estalelecidas as curvas (ou critérios padrões de referência) de 7 a 8 anos de meninos e meninas da rede pública de São Caetano do Sul, vieram comparações com escolares de nível sócio-econômico superior da cidade (do Colégio Quarup, onde essas medidas são até hoje coletadas pelos seus dedicados professores), com escolares de Diadema (Carlos Duarte e Douglas Andrade), com os de Itaquera (Mauro Ferreira), com os de Santa Catarina (Édio Petroski) e Minas Gerais (Olga Mendes, Douglas Andrade). Das comparações nacionais, a mais consistente é sem dúvida a realizada com escolares de Ilhabela, descrita em outro ponto desta publicação.

Comparação de Aptidão Física Internacional

A vinda de alguns estagiários do Exterior possibilitou avançarmos para um ambicioso plano de comparações internacionais, para respondermos à questão: será que crianças e adolescentes crescem e se desenvolvem da mesma maneira em diferentes países e regiões do mundo? Assim surgiram as comparações com a Argentina (Viviana Gallantini, Raul e Ricardo Rivet), Chile recebeu oficialmente assessoria do CELAFISCS como base para o plano nacional de “Perfil Morfológico y Funcional” (Guerman Jauregui e diversos colegas). Em função de profícuo intercâmbio estabelecido com o Instituto de Cultura Física de Havana, dirigido à época por Antônio Pozas Ramos, membro honorário do CELAFISCS, em 1988 apresentamos a primeira comparação de escolares cubanos com brasileiros, fato inédito naquele período anterior à queda do muro de Berlin (Nanci França). Com o Canadá o projeto foi viabilizado com a passagem do Dr. David Montegomery em seu “sabbatical” (o primeiro) no CELAFISCS, em 1989. As comparações com a Guatemala e Bélgica foram feitas por consulta à literatura, enquanto a comparação com a então Checoslováquia foi obra quase de ficção, pois os dados cedidos pela Drª Jana Parizkova por pouco não foram confiscados e seu portador preso pelos policiais de fronteira checa-alemã que revistaram as malas de Victor Matsudo! Em resumo: em termos de valores absolutos de aptidão física, brasileiros são muito semelhantes a argentinos, chilenos, canadenses, cubanos, belgas, pouco superiores à colombianos, bem superiores à guatemaltecos e inferiores à checoslovacos. Lembrem-se, apenas em aptidão física! Ah, o mais significativo: quando analisadas as curvas de maturação, somos ainda mais semelhantes, quase exatamente iguais.

Tracking

Será que o sucesso de uma criança em um teste pode predizer seu desempenho anos depois? Essa palavra interessante, “tracking”, designa a capacidade de uma pessoa manter a mesma posição em relação ao grupo ao longo de um período. Assim, se uma criança aos 8 anos for melhor que 90% das crianças de sua idade no teste de impulsão vertical e mantiver essa posição aos 18 anos, diremos que o “tracking” foi positivo. Pudemos estabelecer o tracking de diversos variáveis de aptidão física usando a amostra de Ilhabela, em períodos de 10 anos (Victor Matsudo e cols, 1996) e de 4 anos (Carlos Brito e cols, 1997). Essa abordagem é particularmente útil na ciência e arte de predição de performance, especificamente na monitorização de talentos esportivos; assim como no processo de envelhecimento, como observado em tema livre do Simpósio 2004 (Maurício Lopes & Timóteo Araújo).

Sociometria no Esporte

Você imagina hoje técnicos usando instrumentos sociológicos para ajudar definir capitão de uma equipe? E de uma seleção Nacional? Não? Pois é, o CELAFISCS já em 1976 fazia uso da sociometria para auxiliar no melhor conhecimento da dinâmica de grupo. O instrumento foi aplicado na Seleção Brasileira de Basquete Masculino antes e após um campeonato internacional emq eu tiveram insucesso (Sul-Americano de Valdívia) e pode-se conhecer não o líder da equipe (capitão), como o melhor atleta (nem sempre o capitão) e o melhor amigo (nem sempre o capitão ou melhor amigo). O paper completo foi publicado por Sônia Cazelatti, Sandra Cavasini e Victor Matsudo nos Anais de 1977.

Gestão Móbile do Modelo Ecológico

As razões do sucesso do Agita São Paulo são diversas e ainda estão por serem determinadas. Uns apontaram as parcerias, outros a retaguarda científica, outros a atenção a fatores sociais e culturais, enfim é uma lista grande. Sallis e Owen em 1997 propuseram um modelo ecológico para a promoção da atividade física, que envolve fatores pessoais, do ambiente social e ambiente físico: natural ou construído. Teoricamente muito interessante. Teoricamente muito interessante, na prática nunca houvera sido aplicado na sua totalidade. O Agita São Paulo foi incluindo progressivamente cada um dos componentes e foi aprendendo a melhor administração de todo o modelo, em uma Gestão Móbile, onde quando um componente do modelo (por exemplo: cognitivo) é alcançado por ações do programa, seu peso relativo dentro do modelo diminuiu e outro componente (por exemplo: ambiente construído urbanização) adquirindo um peso maior no modelo. Caberá então à coordenação geral focar esse outro componente; e usar no processo de decisão não só o conhecimento formal (escrito), mas o informal (verbal) e o de contexto para hierarquizar prioridades de atuação. Duas publicações – peer-review Journals – Internacionais (Journal of Physical Activity and Health e a Revista da ICSSPE Perspectives) estão mostrando a proposta para o meio acadêmico.